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Eu estava andando na rua e vi um gato bege, com um pêlo bem bonito. Ele começou a miar pra mim, se esfregar na minha perna, querendo que eu passasse a mão nele. Não resisti: peguei no colo e levei pra casa.

Ele gostou de mim, porque não me arranhou e nem quis fugir. Deve até ter achado bom. Dei graças a Deus quando cheguei em casa e vi que estava vazia (meu pai mataria eu e o gato se visse nós dois).

Resolvi deixar ele no meu quarto só por aquele dia. Coloquei uma vasilhinha com água e outra com comida em baixo da cama. No dia seguinte eu contaria sobre o gato pros meus pais. Quando eles vissem que eu estava cuidando bem do bicho, me achariam responsável e deixariam eu ficar com ele.

Peguei uma bolinha de tênis e comecei a brincar com o gatinho. Logo vi que ele tinha tino pra coisa: segurava todas as bolas que eu mandava. Ia ser um grande campeão. Chamei-o de Guga.

Levei-o para fazer um tour pela sua nova residência. Ele adorou o banheiro. Tanto é que não parava de beber água da privada. Devia estar procurando peixes; fiquei orgulhoso do meu Guga ser caçador.

Enquanto eu fui pra sala, ele voltou pro quarto. Queria fazer uma surpresa pro gato: quando ele visse o peixinho do meu pai na privada, ficaria até doido! Eu daria a desculpa de que o peixe pulou do aquário e morreu. Ele nunca iria desconfiar de nada!

Na volta pro quarto, eu que tive a surpresa. Descobri que o Guga também tinha vocação para alpinista: subiu no guarda-roupa sozinho, somente com as garras!

Empolguei-me bastante com a descoberta de tantas habilidades. A primeira coisa que pensei foi em levá-lo na TV, no “Se vira nos 30″. Guguinha poderia gerar muita renda pra minha família. Eu nem precisaria de estudar! A felicidade era tanta que eu não parava de beijar o gato.

Ele era tão espirituoso que parecia treinado - fazia festa pra mim, subia nos móveis, pedia carinho… só faltava falar! Fiquei a tarde e a noite inteira trancado no quarto para que o pessoal lá de casa não o visse. Recusei o lanche várias vezes:

- Não, mãe, para de encher o saco! Não quero comer, pô!

Dormi com o Guga embaixo do lençol. O pêlo dele era tão macio e gostoso que parecia um travesseiro. Pela manhã, deixei a porta do meu quarto aberta para não levantar suspeitas. Coloquei o gato em uma gaveta do guarda-roupas. Nunca desconfiariam dele lá! Falei baixinho:

- Calma, Guguinha, é so hoje…

A tarde, quando voltei da escola, fui correndo para o quarto. Minha mãe estava sentada na minha cama, e meu pai ao lado, conversando com ela. Parecia que estavam preocupados com alguma coisa. Quando me viu, meu pai colocou a mão nas minhas costas. Disse bem sério:

- O que tem acontecido com você, filho?

Eu disse que não estava acontecendo nada (a minha voz nem saía direito, de medo). Ele continuou:

- Rogerinho, você está passando por uma fase difícil, a adolescência, mas nada justifica o que você fez - ficar o dia inteiro trancado, arranhar os móveis e ainda por cima fazer cocô no chão! (apontou para um cocô do gato).

Quase sem voz eu respondi, ainda com esperança de esclarecer a situação:

- Calma, espera que vocês vão entender tudo!

Fui até o guarda-roupas e abri a gaveta onde Guga estava escondido. Um cheiro insuportável de gato morto tomou conta da casa toda.

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