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AVISO: O conto a seguir foi extraído de uma edição de uma antiga revista dos anos 1960 chamada A Caricatura, publicação que trazia textos cômicos, cartuns e fotos de mulheres seminuas, geralmente vedetes. Como o texto não é assinado, a revista não existe mais e a editora faliu, sentimo-nos à vontade para, sem a mínima preocupação com direitos autorais, trazer aqui o conto na íntegra. Afinal, sabemos que você, leitor da Desciclopédia, pouco se interessa em ir a um “sebo” atrás de preciosidades como esta. Mas as fotos ficamos devendo. Afinal de contas, preferimos nem saber qual seria a sua reação ao ver sua mãe ou sua avó quase pelada aqui!


Um pequeno bangalô bem gracioso ergue-se numa alea [1] verdejante do subúrbio. Um bangalô solitário e silencioso, cujas persianas estão sempre fechadas como se a casa estivesse desabitada. Na realidade, de vez em quando via-se entrar velhos senhores muito dignos, e também são vistos automóveis luxuosos estacionados diante da porta. As pessoas que moram no bangalô por certo devem ser muito relacionadas.

Talvez seja uma princesa hindu, um ministro… uma vidente célebre? Quem sabe?

As mexeriqueiras do quarteirão piscam maliciosamente os olhos dizendo que aquele bangalô é um templo… profano… onde uma dúzia de sacerdotizas bem perfumadas, em trajes bíblicos, causam arrepios de volúpia no sexo forte… E estas sacerdotizas estão sempre dispostas para o sacrifício cotidiano que elas consumam ao Deus do Prazer, mediante uma taxa que varia de acordo com as posses daqueles senhores.

Uma mulher de idade madura, gorda como uma sopeira, passa diante do bangalô misterioso com seu marido:

— Fique sabendo, Vítor… que se eu vier a saber que tu… como um velho imundo… enfim, tu me compreendes…

Ele compreendeu-a, perfeitamente.

Porém, o excelente sr. Vítor, que há muito tempo não sucumbe aos pecados da carne, é um velho aposentado em repouso que observa na íntegra e escrupulosamente o sexto [2] e o oitavo [3] mandamento. Ele era tal e qual os velhos ladrões que ao verem um colar de pérolas numa vitrine de um joalheiro, ficam com bastante vontade de quebrar o vidro, porém, contêm-se, devido a uma honestidade covarde, motivada pela idade.

— Mas, querida, eu não estou te compreendendo… – retrucou sorrindo o sr. Vítor, mentindo descaradamente.

Também as moças de boas famílias ficam intrigadas com aquele bangalô misterioso. Elas apressam o passo ao perlongarem aqueles muros… e enrubescem pudicamente. Quanto às senhoras idosas, elas viram resolutamente os olhos contemplando o céu. É ali, pensam elas, é a casa do pecado...


Charlie, o vagabundo, perambulou durante muitas horas. Sentia-se cansado. Queria repousar um pouco. Indeciso, estacionou diante da vila. Todos aqueles carros luxuosos estacionados deram ao mendigo uma ideia pouco comum que iluminou subitamente seu semblante de pobre ser de barba inculta. Charlie esboçou um sorriso que descobriu seus dentes amarelados e cariados. Com suas mão calosas ele procurou um naco de tabaco nos bolsos; ficou um instante indeciso; depois bruscamente vociferou sua amargura:

— Não, não, isto vai mal… preciso ir.

O gradil do bangalô está entreaberto… O vagabundo empurra-o… atravessa o jardim… sobe os quatro degraus do patamar.

Em seguida sobe a escada de mármore. Uma sensação estranha de calor e bem-estar o invade. Seus grosseiros sapatos furados pisam tapetes macios… Parece-lhe que seu calvário chegou ao fim. Por certo é ali o paraíso… Um perfume perturbador o atordoa e excita.

Uma porta… uma campainha de porcelana cor-de-rosa.

O vagabundo toca… Um tremor sacode seus dedos, sua mão, suas pernas, enquanto gotas de suor borrifam a sua fronte. Por trás da porta ouviu um rumor de passos. Afinal a porta entreabriu-se e apareceu uma mulher gorda, velha, muito pintada, vulgar… A esposa de Putifar [4]

O rosto enrugado da mulher ilumina-se numa expressão ambígua, enquanto um sorriso profissional destende-se por sua boca enorme. Os seus olhinhos de míope ainda não tinham situado o homem que se mantinha na soleira da porta.

— Será que o senhor e a senhora estão em casa? – indagou confuso o vagabundo.

Ela expressou-se com voz trêmula sentindo a garganta seca.

A velha abandonou a atitude grave que lhe é peculiar e explodiu numa gargalhada que faz sacudir seus seios flácidos.

Charlie lança em torno um olhar desolado. Nas paredes estão pendurados vários espelhos, e quadros representando o nu feminino, em todas as poses. Ouve-se risos, campainhas e canções. O simplório do Charlie compreende afinal. Continuou a mascar o seu fumo cuspindo de vez em quando no tapete.

Ah!, como ficou decepcionado… e a gorducha, para arrancá-lo da decepção de ter entrado numa “casa hospitaleira”, diz-lhe às gargalhadas:

— E então, meu velho, te enganaste no endereço?… Pois bem, não é aqui que se vem pedir esmola…

O mendigo avança um pouco depois para desculpar-se da sua audácia maliciosa, retrucou sem embaraço:

— Oh! Madame, pode crer… Não é o pão que se dá por caridade…


[1] Não sabe o que é “alea”? Pegue aquele seu Aurélio que está mofando em algum canto da sua casa e descubra!
[2] “Não cometerás adultério.”
[3] “Não darás falso testemunho.” Aquela desculpa de “Vou ali e já volto”, para o sr. Vítor cair na gandaia.
[4] Não sabe o que é Putifar? Vai no Gúgol, no Iarru, na Wikipedia… Procura, ô, mané!

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