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Guia de sobrevivência no RUEditar

Durante algumas semanas do ano (algo próximo a 90% delas) o cardápio montado no RU tende a seguir uma ordem pé-definida, onde na segunda, tem-se o churrasco/posta/bife, terça é carne em cubos, quarta barreado, quinta carne moída e sexta são almôndegas. Por algum motivo estranho em toda semana que acontece esta ordem os cachorros próximos ao RU tendem a sumir e nunca mais serem encontrados.

Alunos desocupados preocupados com a eficácia e qualidade da logística do RU elaboraram o guia de sobrevivência para aquele calouro que nunca comeu no RU.

PrefácioEditar

O RU é uma instalação presente na maioria das universidades públicas (também existem nas particulares), na qual este deslivro apresentará o relato factual da Universidade Federal do Paraná, na qual as experiências aqui relatadas se assemelham em outras instituições pelo país.

ApresentaçãoEditar

Todo estudante digno deve almoçar algum dia no Restaurante Universitário. Somente essa experiência traz a verdadeira imersão na Universidade e o contato empírico com o funcionamento da instituição. Primeiro porque o RU é um dos raros espaços da UFPR onde o serviço é higiênico e feito com amor e carinho. Aquelas senhoras que acalmam a larica diária servindo doses, nem sempre tão generosas, de sagu, pudim de leite e fricassê de frango transpiram tranqüilidade e preocupação com nosso bem estar. Sempre atentas, de paninho na cabeça e sorriso sincero, são verdadeiras avós no esquema indústria tempos modernos de servir refeições. Fora um ou outro maconheiro faminto que requisita porção extra, cada aluno recebe uma sobremesa e a sua dose diária de proteína animal garantindo uma alimentação balanceada e nutritiva, certificada pelas gentis nutricionistas que elaboram o cardápio. Ou não.

Acontece que dentro da estrutura de produção do Restaurante Universitário existem algumas manhas, que somente a prática diária pode trazer ao mortal comum. Procedimentos que, seguidos, garantem o máximo de prazer possível em uma refeição e evitam a maioria dos problemas que um universitário público, gratuito e de qualidade corre o risco de enfrentar.

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Princípio da Jornada no RUEditar

Tudo começa na chegada ao refeitório acadêmico. É preciso ser sábio para escolher o melhor horário, pois a tranqüilidade de se chegar as 13:25, cinco minutos antes das portas se fecharem, evitando filas e sentando confortavelmente em qualquer uma das centenas de cadeiras que estarão disponíveis, custa o risco de ter que encarar a refeição de emergência, quando o fricassê e o pudim de leite já terão acabado e você vai acabar levando uma laranja e um kibe. Não querendo correr esse risco, convém chegar mais cedo e disposto a longas conversas durante a espera. Logo ao chegar, ao ver aquela fila quilométrica quase no hall da casa da estudante, não se acanhe: procure um conhecido, cumprimente e fique por ali, economizando algumas passadas. Alguns, maldosos, chamam de "furar a fila" ou "trapaça" mas é tradição, e tradições precisam ser respeitadas.

IdentificaçãoEditar

Ao chegar na porta, algum documento será requisitado. O Estado é nosso amigo e paga metade do almoço público, gratuito e de qualidade, mas não quer sustentar qualquer vagabundo. Para desfrutar do subsídio você tem que provar que é estudante e que está contribuído para o desenvolvimento científico desta nação e para o grande espetáculo do crescimento. Então leve a carteirinha da biblioteca, o comprovante de matrícula, ou qualquer outra folha de papel com teu nome escrito que você consiga convencer que é um documento. Caso tenha esquecido, sempre existe a possibilidade de convencer o porteiro de que você é calouro e não sabia, mas talvez exija um pouco de lábia.

Sobre o Seu PauloEditar

Paranaense de nascimento, gaúcho por escolha íntima e gremista por doença, Seu Paulo vem conquistando a simpatia dos estudantes ao longo do tempo. Apreciador dos bons prazeres da vida, Seu Paulo não é daqueles que recusam uma boa skol gelada no come-come com a companhia de uma bela moça. Cortejador nato, seu Paulo tem técnicas de abordagem únicas e agressivas. Quantos alunos já não o viram sentado sozinho no come-come com um cigarro olé na mão e um copinho americano de cerveja do lado lançando olhares fulminantes a belas senhoras sentadas, acompanhadas de um cavalheiro ou não. Dizem que ele é o único que sabe o que se passa dentro da cozinha do R.U. central. Tanto que garante aos conhecidos mais íntimos que jamais comeu nada que tenha vindo de lá. Nem mesmo uma laranja.

Procedimentos BásicosEditar

A bandeja é o grande diferencial, a ruína e a glória do antro das refeições. Provavelmente forjadas na época em que a universidade foi fundada, muitas personalidades hoje famosas já comeram nessa chapa de metal retorcido onde agora você chafurda. Além de boa parte dos magníficos reitores que esta universidade já teve, diversas figuras políticas - provavelmente antigos líderes do movimento estudantil - e alguns meritosos pesquisadores que a ciência honra possuir já desfrutaram de um almoço universitário.

A não ser que seja um detento cumprindo condicional ou que more em alguma outra instituição de controle, provavelmente você come com pratos em seu lar. Isso significa que certamente não está familiarizado com os meandros e detalhes da arte do comer em bandejas de aço. O primeiro e mais óbvio cuidado, ao receber a dita das mãos da entregadora de bandejas, é não deixá-la cair. Pode parecer bobo, mas é sempre bom relembrar. A metodologia e logística do RU foi friamente planejada para servir milhares de refeições por dia, mas não tolera falhas. Um mínimo atraso do fornecimento de batatas fritas atrasa a fila apenas por alguns minutos mas, dependendo do horário, alonga-a em quilômetros. Isso quer dizer que se você derrubar seu almoço no chão, além do puta barulho que vai fazer, atraindo o olhar recriminador de todos os alimentandos, essa pequena falha não terá sido prevista, um funcionário não foi designado para a função de limpar feijão do chão e provavelmente (nunca tive a oportunidade de observar tal situação, faço apenas suposições teóricas) todos correrão como loucos, arrancando os próprios cabelos e gritando: cortem a cabeça dele!. Portanto, cuidado.

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Agora que você já tem a bandeja e não vai deixá-la cair, estude-a cuidadosamente. Perceba que ela é composta por 5 compartimentos: um quadrado grande, dois retângulos pequenos e dois outros compartimentos em um formato irregular; além de uma pequena depressão redonda onde, por mais tentador que seja, você não deve colocar o seu copo, pois ele certamente vai cair sobre você, sobre os outros, sobre a sua comida ou sobre tudo isso.

Conduta & etiqueta no RUEditar

Acredito que uma obra de arte gastronômica, como nas outras artes, é mais do que simplesmente a soma dos seus elementos constituintes. Não basta pensar em uma série de ingredientes gostosos e juntar todos eles para ser um bom cozinheiro. É preciso ter a sensibilidade de um poeta para perceber quais as combinações mais agradáveis entre sabor, odor, textura e cores do alimento. É necessário perceber a delicadeza contida em cada porção de aminoácido, em cada fibra vegetal e ter a singeleza para sentir a magia que emana de cada alimento e perceber quando algo esta fora do seu lugar. Não cai bem, portanto, jogar feijão no pudim de mamão.

Como não sou vegetariano, vegan ou adepto de qualquer moda alimentar alternativa, assumo que o quadradão do meio - o palco principal do bandejão - você vai destinar ao arroz, feijão ou algum outro prato quente, e não vai enchê-lo de alface e beterraba, que são muito saudáveis, ricos em fibras, ótimos para a atividade intestinal, mas que para mim são só coadjuvantes

Logo na entrada da passarela alimentícia é servida a sobremesa. Como a essas horas você deve estar com a bandeja virada de modo que o quadradão fique virado para os alimentos e a depressão em formato de copo para seu corpo, é muito fácil cair no erro de permitir que aquele monte de sagu seja despejado em um dos retângulos adjacentes ao quadrado. Acontece que o risco de a guloseima ser conspurcada por algum outro alimento no decorrer da refeição é grande, a despeito das suas habilidades com os talheres. Além disso, tradicionalmente ela só vai ser consumida ao final da refeição, sendo muito mais adequado colocá-la em um dos compartimentos irregulares e no final, sentado a mesa, girar a bandeija sobre o próprio eixo trazendo a delícia para sua frente. Quando a sobremesa for sólida - especialmente os pudins de maisena ou as gelatinas cobertas com gosma -, um bom conselho é solicitar os pedaços quebrados que invariavelmente se multiplicarão no instrumento de trabalho da servidora. Mas quando a sobremesa for tangerina, não vale pegar uma extra apenas para espremer sua casca espirrando jatos ácidos nos olhos dos seus colegas.

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Tomado esse cuidado, prossiga na passarela. Logo na próxima travessa, são servidas as saladas. O costume de picarem as folhas existe para agilizar o servir-se, livrando o aluno obsessivo de ficar procurando o alface com o tamanho ideal para sua fome ou o agrião com as folhas mais simétricas. Mas também cria um problema sério, que devemos estar atentos: os vegetais ficam irreconhecíveis para quem não faz agronomia. Quer dizer que você pode pegar um monte de alguma folha amarga como fel, achando que é um alfadinho sossegado. Para garantir a quantidade de fibras e vitaminas diversas que os cartazes das acadêmicas de nutrição sugerem, mas sem ter que passar pelo desconforto de engolir losna picada, coloque a porção do vegetal sob suspeita em um dos compartimentos e uma generosa porção de vinagrete com tomatinhos picados em outro, pra quebrar um galho no caso das folhas serem intragáveis.

Passando às saladas, você encontrará a parte imutável da refeição estudantil: feijão e arroz. Ainda que às vezes o arroz tenha algum complemento dentro, como pedacinhos de vegetais e ovos ou temperos que deixam ele amarelo, e que o feijão alterne entre o marrom e o preto, a mudança é mínima e a base sempre se mantém. Sirva-se a vontade, o arroz é um dos alimentos mais antigos de que se tem notícia e dos mais consumidos, e é também o que representa o maior potencial para combater a fome no mundo, já que é considerado um dos mais bem balanceados nutricionalmente, com propriedades superiores às do trigo. Já o feijão proporciona nutrientes essenciais como proteínas, ferro, cálcio, vitaminas (principalmente as do complexo B), carboidratos e fibras. Todos estes nutrientes aparecem em quantias significativas a ponto de substituir os produtos animais. Mas, por favor, tenha a decência de não derrubar a concha no meio da travessa, isso é muito desagradável.

Prossiga e poderá agora servir-se dos pratos quentes variáveis. Pode confiar. Mesmo que às vezes a aparência não ajude muito, lembrando filmes como "Alcatraz" e seriados americanos sobre a vida nas prisões, o tempero e a consistência dos pratos são cuidadosamente pesquisados e preparados para que estatísticamente agradem o maior número de paladares possível. É claro que essa homogeneidade também tem suas desvantagens, principalmente se você for adepto de sabores mais exóticos ou radicais. Você nunca encontrará, por exemplo, a sutileza do agridoce ou o prazer de uma dose concentrada de alho mas, dentro da média, todos os pratos são muito bons.

Finalmente você chega até as carnes e não sendo vegetariano poderá desfrutar de deliciosos pedaços de bichos nutritivos e ricos em proteínas, vitamina B, Ferro, Cobre, Zinco e outros minerais. Aqui vale a dica anterior: pode confiar e mandar ver. A dose é padronizada e única por pessoa, mas como as senhoras do RU só desejam o nosso bem, isso é plenamente negociável, basta ser educado. Uma boa dica é pedir para a tia mais um pouquinho de molho da carne moída sobre sua montanha de arroz com feijão: com pena - e sem paciência para separar a fase sólida da fase líquida - ela lhe dará uma porção extra de proteína animal.

Conquista do MéritoEditar

Se você seguiu todas as dicas apresentadas e não possui nenhuma doença degenerativa ou mentalmente degradante, deve estar com a bandeja completa e com um belo sorriso de satisfação estampado no rosto. Muito bem, sucesso! Sinta-se realizado, você sobreviveu. Agora segure firme e vá procurar um lugar vazio ao lado de alguma gatinha. E cuidado para não derrubar o molho da carne moída ou a fase aquosa do feijão sobre a sua própria calça jeans velha e imunda. E se derrubar vinagrete no pescoço de algum desavisado sentado que já está desfrutando da sua refeição, prossiga seu percurso em busca de um lugar sem interromper o seu trajeto para não atrapalhar o fluxo.

Considerações FinaisEditar

E só não se esqueçam, em caso de emergência (no RU Politécnico) a casa III (com enfermeiros prontos e muito experientes para lhe atender, obviamente se já não estiverem ocupados com outras pessoas, ou outros compromissos) fica logo ao lado do RU, de frente para a saída... E o acesso é fácil, permitindo um rápido deslocamento até lá...

CARDÁPIO DO RUEditar

  • Arroz Carnavalesco

sempre em blocos;

  • Feijão Lorenzetti

um banho de água quente;

  • Kibe transex

de dia era Kibe, de noite virou torta;

  • Chuchu

você pega na esperança que seja batata, mas é chuchu;

  • Chuchu II

o quarto estado da água (inodoro, insípido e incolor)

  • Peixe

sempre é servido após o período de engorda com pão;

  • Bife Fantasia

só fantasiando para sentir o gosto;

  • Salada

a única coisa que é verde e não é amargo é o tomate;

  • Chá

a grama ser cortada justo nesse dia não é apenas coincidência;

  • Sopa Lavoisier

geralmente servida na segunda, feita com restos de toda a semana anterior;

  • Almôndega

também conhecida como Hambúrguer em coordenadas esféricas;

  • Vinagrete

presente da época autoritária de Getúlio Vargas que dura até hoje;

  • Bife Super-homem

frio, duro e com nervos de aço.

  • Bife ao Molho Escuro Obscuro

ainda quando era um bezerrinho foi para o lado negro da força desde então ele só é capaz de fazer o mau.

  • Bife Super-homem

frio, duro e com nervos de aço.

  • Bife com carimbo

Se você for sortudo, seu bife pode vir com o carimbão do SIF. Pelo menos é uma garantia de qualidade.

  • Frango _____________ (complete aqui com qualquer delírio de sua imaginação). O gosto continua o mesmo, mas o nome... Quanta diferença!
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