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Harry Portinha e o copo de pinga


Harry Silva era mais um daqueles tantos garotos pobres brasileiros que tinham nome estrangeiro. Os pais escolheram esse nome por desejar muito que ele vencesse na vida e fosse tão rico e feliz quanto os americanos dos filmes pareciam ser. Mas teve uma infância difícil. Perdeu os pais cedo. O pai, em busca do sonho americano, foi atravessar a fronteira México-Eua e morreu no deserto. A mãe caiu no desespero e sumiu na vida. Harry ficou órfão e acabou sendo adotado por um tia que quando percebeu que o moleque podia andar e falar alguma coisa, o pôs para pedir esmolas nos sinais de trânsito da grande metrópole.

Um dia, lá pelos nove anos de idade, no sinal, pedindo esmolas, ele recebeu uma resposta surpreendente. Um homem numa caminhonete gritou para o "dimenor":

- Esmola o cacete!! Prá pobre eu dou cachaça!! Cachaça!!

O menino respondeu que aceitava. O homem olhou atônito para o moleque. Mas o sinal abriu e o carrão se foi.

No dia seguinte, a caminhonete voltou. O homem abriu o vidro e chamou o pobre menino:

- Vem cá, moleque! Pega essa sacola aqui ó: tem um litro de cachaça e um copo. Vou dar a volta no quarteirão e quero ocê entorne essa garrafa toda! Todinha!!

Quando o homem da caminhonete voltou, Harry havia tomado toda a cachaça, fazia malabares com o litro de pinga e o copo e gritava todo tipo de palavrão. O homem desceu do carro gritando "Magia!! Magia!! Pura magia!!" e empurrou rapidamente o moleque para dentro do carro, para espanto de todos que ali se encontravam.

Harry acordou em cima de uma mesa de uma casa antiga e simples. Em volta, um bando de olhos espantados. Com a língua embolada, Harry murmurou:

- Eu quero mais cachaça, seus trouxas!! Cadê a cachaça, porra!?

Um homem de barbas longas e brancas e bafo de cana se aproximou, escarrou no chão e lhe disse com voz firme:

- (Roguárts!! Cusp!!) Mais respeito, moleque! Eu sou Genésio da pedreira e você está na reunião da Academia da Pinga, garoto. E agora você começará um sério treinamento nas magias etílicas. Dominará a técnica da marvada e assim se tornará o maior cachaceiro do mundo. O maior graduado etílico do planeta!! Você será a redenção da nossa academia!

Nisso se aproximou um outro homem, também de barba por fazer, com cara de ser curtido na pinga e com um forte bafo de cerveja misturado com cheiro de fumo de rolo:

- Mas antes precisamos definir para qual buteco você irá para aprender a arte. E só você pode nos dar um sinal para que possamos te mandar prá um deles: o do Seu Ferreirinha - que sou eu, o Corveral, o Toma -toma ou o da Tia Chicória.

Nisso o moleque se senta na mesa, fica meio esverdeado, passa para um cinza pálido e lança um vômito de cor avermelhada que parou na parede logo abaixo de um quadro com uma foto do Brasil campeão de 1970. Genésio se aproximou da parede, olhou bem e soltou a decisão:

- Ó, pela cor do juca ele tem que ir pro Seu Ferreirinha! Leva logo o moleque!! Rápido!! E dá um boldo prá ele que tá danado!! Óia, o juca dele tá até dissolvendo o reboco da parede!!

O buteco do Seu Ferreirinha ficava na zona boêmia, um pouco abaixo de um hotel de alta rotatividade. Era o tradicional copo sujo, de banheiro tão imundo que nem as baratas agüentavam ficar perto, e com bebidas e tira-gostos de quinta categoria. Nos fundos, ficava uma portinha (que rendeu apelido ao garoto) de acesso a um depósito de bebidas todo mofado e com gambiarras na luz. Foi lá que Harry passou a viver de forma pouco saudável.

A rotina de treinamentos era dura. Acordava às 5 da manhã e, sob o olhar severo do bigodudo Ferreirinha, tinha que virar dois copos americanos cheios de pinga de 50 centavos o litro. Ás 6 horas comia os salgados e tira-gostos que tinham sobrado do dia anterior. De 7 ás 9 tinha de lavar a louça do buteco e da casa do seu Ferreirinha, ao mesmo tempo que tinha que virar pelo menos seis garrafas de cerveja quente vagabunda. De 9 ás 13, Harry decorava os nomes das garrafas de pinga que ficavam nas prateleiras das paredes mofadas bebendo mais cerveja quente. Das 13 ás 18 horas tinha que ficar tentando “serrotar” a cerveja e a cachaça de clientes bêbados incautos, ao mesmo tempo que tinha que decorar todas as músicas breganejas e de pagode que tocavam no rádio de pilha sobre o balcão. De 18 ás 23 horas ele tinha que peregrinar entre os quatro butecos formadores da Academia da Pinga, bebendo o que lhe dessem, para convencer os donos de que estava se empenhando em dominar a técnica.

Mas o garoto tinha o dom. Nos anos seguintes, foi se embebedando diariamente e em doses crescentes, com os mais variados destilados e fermentados. E ia enchendo de orgulho a Academia.

Um dia, ás vésperas de completar 18 anos, Genésio da Pedreira, Toinho do Corvinal, Sinval do Toma-toma e Tia Chicória apareceram para visitar Ferreirinha e o garoto. Toinho (o que parecia curtido na pinga) entrou berrando:

- Ferreirinha, seu bosta!! Vamo levar o menino prá Condessa ou não vamo? Olha que lá vem o torneio! Faltam dois meses só!!

Depois de um animado bate papo, os acadêmicos levaram Harry Portinha de carro até a rua do meretrício mais canhestro da cidade. Era perto, mas a solenidade necessitava que o levassem de carro. Pararam em frente de um prédio de três andares caindo aos pedaços e empurraram Harry escada acima. Em um dos apartamentos do segundo andar uma senhora gorda e mal vestida com lá seus 50 e tantos anos os esperava:

- Hum... esse então é o cabação!! É, vou ter de dar um trato especial no frangote, senão... babau torneio!! Rá, rá,rá!!

Agora Harry teria aulas diárias com a "condessa" Valderez, a prostituta mais experiente da região. Valderez era tão afamada que até tinha slogan próprio: "Valderez, Valderez, meteu uma vez, virou freguês". Essas aulas eram para preparar Harry para o torneio boêmio mais famoso do país: o torneio "tri-buxo". Harry teria que tomar muito goró (mas muito goró mesmo) e comer três mocréias de alto nível de "horrorosibilidade", sendo avaliado por alcoolátras eméritos de todas as regiões do estado, de outros estados e até do exterior. Se vencesse, estaria classificado para a Copa do mundo dos bêbados que seria realizada na Esbórnia.

E Harry metia, bebia, metia, bebia, metia... mas não percera algo estranho com a Val (como ela gostava de ser chamada). Que ela ficava lendo revistas e jornais enqüanto metia ele já tinha percebido e nem ligava. Mas já havia três dias que ela só lia uns jornalecos estranhos.

Na semana seguinte Valderez deixou Harry e a Academia literalmente na "mão". Faltando apenas três semanas para o torneio, se converteu em uma fiel religiosa radical e para piorar a situação, denunciou o treinamento do garoto para o Juizado de menores. Harry teve que ser escondido em um barraco de uma favela próxima até ter algum sossego.

E finalmente chegou o grande dia. Harry e a Academia nervosos, muito nervosos. Era vencer ou vencer. As provas iriam acontecer das 18 horas às 3 da manhã, em bailões da região mais lascada do centro, perto da rodoviária. Harry se animou, pois teria até torcida organizada.

Primeiro bailão. Harry bebeu muito e catou uma fubanga que só tinha dois dentes, e bem podres. Ficou em segundo, logo atrás de um concorrente que papou uma vesguinha banguela nos fundos e bebeu uma poça de pinga que outro concorrente deixou cair acidentalmente.

Segundo bailão. Harry assumiu a liderança bebendo quatro garrafas de bebidas "mais sólidas" (de 40 graus para cima) e carcando uma gordona cheia de cabelos no suvaco e odor nauseabundo.

Terceiro bailão. Harry, com tudo para vencer, deixando para trás pinguços nacionais com 20, 30, 40 anos de estrada, começou bebendo três garrafas de cachaça ordinária. Depois entornou o chifre mandando prá dentro umas dez caipirinhas feitas com a mesma cachaça vagabunda. Na sequencia, chapou cinco doses de uísque paraguaio. Só faltava descolar a mocréia:

- E aí, gatinha! Vamo escumelhar a chaporonga?

Aos gritos de "Harry Portinha é foda!!" e "É campeão!!" os dois saíram do inferninho e foram cambaleando pela avenida em direção a algum "hotel" da área. A garota sugeriu o hotel Sordydu's que ficava na rua ao lado e ele topou.

Subiram as escadas e entraram no quarto. Harry fechou a porta e quando acendeu a luz, teve uma surpresa incrível: a condessa Valderez estava sentada na beira da cama.

- Val, você é de morte!! Voltou prá putaria!! Porreta!! Vou traçar cês duas!!

- Ah, não vai não! Nem eu, nem a Raimundília!! Te armei uma cilada!! Você vai escutar agora músicas que vão te mostrar o caminho da salvação!! E vou acabar com aquela academia do demo!!

Valderez acionou o cd player de um microsystem xingling, a música tomou conta do quarto, Harry foi ficando esverdeado passando para um cinza pálido e apenas conseguiu dizer: - Desliga essa porra, que isso tá me dando vontade de...

Pela manhã, a polícia arrombou a porta da alcova e encontrou o quarto totalmente tomado, inundado, por uma gosma avermelhada. E encontraram inteiro somente uma peruca caju-piranha que, segundo testemunhas, teria pertencido à condessa Valderez. Todo o resto havia sido dissolvido pela gosma: cama, condessa, criadomudo, Harry, microsystem xingling e até Raimundília.

E Harry Portinha virou lenda. De vez em quando surgia alguma notícia estranha sobre ele. Uma vez foi visto andando de madrugada junto com um espectro de loura. Alguém jurava que vira ele lá no nordeste, tomando umas com a Raimundília em Recife. Ou que ele fora visto num churrasco em Brasília.

Mas, única coisa que Seu Ferreirinha dizia, com cara de mau humor, quando perguntado sobre Harry era:

- Ó, aquele fedaputa do Harry virou peido!! Sumiu!!

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